Vocês não estão sozinhos!

, por Marius Schlageter

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Vocês não estão sozinhos!
Rio de Janeiro. Fotografia: CC0

Caros amigos no Brasil

Escrever uma carta sobre as eleições presidenciais passadas parece uma tarefa sem esperança. Por um lado, existe o legado colonial europeu, que deixou feridas tão profundas em vocês até hoje. Por outro lado, o Brasil parece politicamente extremamente dividido. Então, por onde começar sem provocar mais ódio?

Antes de mais nada, é importante reconhecer que qualquer interferência europeia em assuntos internos do Brasil devia ser evitada. Isto porque são as estruturas de poder, criadas pelos europeus, que ainda hoje mantêm o seu país em desvantagem. O Brasil foi «descoberto» pelos europeus, ou como deveria ser dito, «conquistado» e, em seguida, dividido em «capitanias», ou seja, distritos administrativos. Foram os europeus que inventaram a escravidão e a introduziram no Brasil. Foram os europeus que ancoraram estruturalmente o racismo desde o início de sua ocupação e foram os europeus que tomaram e privaram vocês de grande parte de seus recursos naturais.

O racismo estrutural ainda persistente, a ancoragem estrutural de exploração de recursos naturais e a contínua preservação do poder nas mãos de membros brancos e masculinos de elites: essa é a herança da Europa no Brasil.

Eu já posso ouvir as vozes dizendo: «Você está tentando culpar os europeus por tudo?»

Na minha opinião, não é uma questão de culpa, mas sim de criar consciência. Consciência de nossa herança e, assim, também uma consciência de como os comentários europeus devem soar aos ouvidos brasileiros: hipócritas.

Mas agora é hora de escrever uma carta para vocês, meus amigos brasileiros, sobre a eleição presidencial no Brasil. Então, como comentar sem soar hipócrita? Quando reflito sobre as minhas próprias ações políticas e sobre os valores que eu quero defender, sempre me lembro do artigo 2 do Tradado da União Europeia:

“A União funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres. “ Artigo 2, Tratado da União Europeia

É importante saber que esses valores não vieram do nada. Esses valores surgiram como uma resposta a séculos de violência que culminaram em duas guerras indescritivelmente horrendas. Estes valores surgiram da busca por uma coexistência pacífica. Eles também surgiram da percepção de que o progresso social e a justiça social só podem funcionar envolvendo pessoas.

Isso também explica minha rejeição ao seu novo presidente: ele repetidamente se manifestou contra a solidariedade com os desfavorecidos e os pobres. Ele tem falado repetidamente contra o respeito pelos direitos das minorias. Ele se pronunciou repetidamente contra a democracia e o estado de direito. Ele tem falado repetidamente contra o respeito pela dignidade humana. Jair Bolsonaro repetidamente criticou todos os valores que defendo. Eu me sinto pessoalmente agredido com a eleição do Bolsonaro.

«Isso não é sobre você, Europeu-Mimimi! Bolsonaro foi eleito democraticamente e você deve respeitar se não queremos defender esses valores no Brasil!» É verdade. Bolsonaro foi eleito democraticamente e eu respeito isso. Mas também é verdade que o Brasil não é composto apenas por adeptos de Bolsonaro. As grandes ondas de protesto contra ele e suas políticas antes e depois da eleição mostram isso muito claramente.

Portanto, esta carta é endereçada aos «meus amigos no Brasil». Esta carta é para Edna, Álvaro, Nathália, Maurício, Julia, Raquel, Lucas, Cacá, Luis, Rafael, Ingrid, Matheus, Pedro, David e todos os outros brasileiros que também se sentem pessoalmente agredidos com a eleição de Bolsonaro. Essa carta vai para todos os que estão comprometidos com a preservação da democracia. Essa carta vai para quem não quer se resignar à degradação das pessoas com base na cor da pele, sexo, orientação sexual, orientação política ou origem social.

Esta carta vai para você porque eu quero gritar para vocês: Não desistam da esperança! Nada é inevitável! Você não está sozinho!

Parece sem esperança. Bolsonaro venceu, você perdeu. O Brasil parece estar voltando para um passado cruel. Um passado em que o Estado reprimiu minorias e em que ele torturou e assassinou dissidentes. Um passado em que sua vida está concretamente em risco no momento presente. Esse medo deve pesar toneladas em vocês. Hannah Arendt afirmou uma vez que «ninguém tem o direito de obedecer»! Estou firmemente convencido de que vocês já sabem disso há muito tempo! Nos dias seguintes à eleição, muitos de vocês transmitiram esperança, coragem e a disposição para revidar. "Ninguém solta a mão de ninguém”. Portanto: Se organizem, se juntem! Não importa se você está comprometido com a proteção ambiental, com educação, com igualdade ou qualquer outra coisa: esteja ciente de que todos vocês estão lutando pela mesma coisa! Movimentos como o OTPOR! na Sérvia, os estudantes corajosos na Nicarágua ou o movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos comprovam isto. Juntos, vocês têm a chance de evitar uma volta a este passado cruel!

Nesse sentido:

Não desistam da esperança! Nada é inevitável! Vocês não estão sozinhos!

com profunda amizade,

Marius

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